
A jornada de quem depende de acessibilidade no Brasil é, muitas vezes, uma maratona de obstáculos que vai além das limitações físicas. Um episódio ocorrido no último feriado de Carnaval, no Terminal Barra Funda, em São Paulo, expôs – mais uma vez – a fragilidade do sistema de transporte intermunicipal, a falta de fiscalização e o descaso de empresas tradicionais com o direito de ir e vir do cidadão.
Irineu Bertti dos Santos, morador de Avaré e designer gráfico, planejou seu retorno para casa com rigor: comprou a passagem da empresa Lira Bus com seis dias de antecedência. No entanto, o planejamento esbarrou na precariedade técnica. Às 18h30 do dia 17 de fevereiro, o ônibus que deveria levá-lo de volta apresentava uma falha crítica na poltrona elevatória.
“A poltrona não descia. Parecia falta de lubrificação, falta de óleo. E o pior: não havia ninguém capacitado para operar o equipamento”, relatou Irineu em depoimento ao in Foco.
Enquanto os demais passageiros embarcaram em um veículo substituto às 19h15, o avareense foi deixado para trás, aguardando um mecânico que sequer conseguiu sanar o problema – tudo de forma humilhante dadas as circunstâncias. O embarque só foi possível às 20h40, resultando em uma chegada na madrugada, por volta de 1h da manhã.
O caso não é isolado. Segundo a vítima, esta é a terceira vez que enfrenta problemas de acessibilidade com a mesma empresa, a Lira Bus. A indignação motivou o registro de um Boletim de Ocorrência (CO8342-1/2026) e uma reclamação formal na plataforma Reclame Aqui.
Além disso, a empresa exige que a passagem seja comprada com antecedência e, muitas vezes, exige que o passageiro compareça pessoalmente para “comprovar” que é cadeirante.
O documento policial fundamenta a queixa nos Artigos 186 e 927 do Código Civil, que tratam da responsabilidade de reparação de danos por negligência ou omissão. “É um constrangimento ver todos partindo e você ser barrado por uma falha que a empresa já deveria ter previsto e corrigido”, desabafa. O caso agora segue para a esfera judicial, sob os cuidados de um advogado.
Superação
A história de Irineu é marcada por uma resiliência notável. Cadeirante há oito anos, sua condição não foi fruto de acidente, mas de uma atrofia gástrica severa que impediu a absorção de nutrientes vitais. O diagnóstico tardio levou a um quadro dramático de demência e perda de massa muscular, revertidos apenas após o tratamento correto com vitamina B12 injetável.
“O cérebro começou a consumir as reservas do meu corpo para sobreviver. Perdi o movimento das pernas, mas recuperei minha consciência”, explica. Hoje, Irineu transforma sua realidade através do estudo e do trabalho. Aluno de Design Gráfico, ele atua no setor e busca, através de sua renda, adquirir uma cadeira motorizada para enfrentar as calçadas irregulares de seu bairro, conquistando a autonomia que o sistema de transporte lhe negou.
O outro lado
Em resposta preliminar via plataforma de defesa do consumidor, a Lira Bus informou que o caso foi encaminhado aos setores internos para análise. Até o fechamento desta edição, não houve uma proposta de reparação direta ao usuário pelo tempo de espera e danos morais sofridos.
A equipe do in Foco continuará acompanhando o desfecho jurídico deste caso, que serve de alerta para a necessidade urgente de fiscalização nos terminais rodoviários e maior rigor na manutenção de frotas que se dizem acessíveis.




































