Ele é uma referência para a literatura histórica de Avaré e região e hoje, comemora quatro décadas de excelente trabalho como servidor público nesta sexta, dia 1º de agosto de 2025.  Gesiel Junior, colunista do in Foco, autor de 55 livros, narra sua brilhante trajetória em artigo enviado ao in Foco, revelando o quanto a cidade, a comunicação, a arte, a cultura e a memória devem a ele e sua dedicada jornada no funcionalismo, que deve acabar em breve, já que ele anunciou sua aposentadoria.

Confira na íntegra esse maravilhoso relato.

 

No serviço municipal, ano 40, em treze parágrafos

 

 

* Gesiel Júnior

 

Completo neste 1º de agosto quatro décadas no funcionalismo municipal. Como ainda estou na ativa, a data me sugere um breve e último balancete sobre a longa jornada profissional no serviço público. Em 40 anos as coisas mudaram bastante, mas não significa ter havido tanta evolução.

Quando ingressei na Prefeitura de Avaré, aos 21 anos, ainda nem estávamos no atual regime constitucional. Comecei cuidando da correspondência do executivo e muito aprendi ao lado do querido poeta Cláudio Cortez, que então secretariava aquela gestão. Meses depois passei a responder pioneiramente pela assessoria de imprensa do prefeito, por conta da prática no jornalismo iniciada na minha puberdade.

Findava a ditadura militar em 1985, eram tempos de redemocratização e a mim coube, como porta-voz do Dr. Paulinho Novaes, anunciar as obras da nova rodoviária e do novo aeroporto, empreendimentos feitos com pleno apoio de Franco Montoro e de Orestes Quércia, governadores municipalistas, os quais, na época, mantiveram Avaré como sede regional.

Nesse período a cidade projetava-se como polo da MPB e nisso pude cooperar ao ser convidado a integrar voluntariamente a comissão organizadora da Fampop, como assessor de imprensa, quando pude editar os informativos do festival e louvar o talento de seus patronos, dentre os quais, Edu Lobo, Gilberto Gil, Ivan Lins e Guilherme Arantes.

O “multiprefeito” Fernando Cruz Pimentel (ele governou o município por cinco mil dias) me manteve no posto, o que me permitiu, como correspondente da Agência Estado, produzir reportagens sobre Avaré e seu potencial turístico tanto para o Jornal da Tarde como para o Estadão. Aliás, dois presidentes da República visitaram a região (José Sarney em 1988 e Fernando Collor em 1992), o que me fez rebolar para atender os colegas da grande mídia.

A eleição de Miguel Paulucci significou a modernização administrativa. Ele criou o primeiro secretariado e me designou para a Secretaria Municipal da Comunicação. Como prefeito o médico investiu na qualificação do funcionalismo, promovendo em 1995 o concurso público que regularizou a situação de todos os servidores. Obtive então a maior nota do certame e assim me efetivei na função.

Na administração seguinte, me descobri escritor e passei a me dedicar simultaneamente ao estudo da memória avareense. Sugeri ao prefeito Joselyr Silvestre, ele aprovou e em maio do ano 2000, há 25 anos, as instalações da CAIC foram adaptadas para nelas funcionarem o polo cultural que dá lugar à Biblioteca, ao Museu e hoje também ao Memorial Djanira, que honra a grande pintora de quem me tornei biógrafo e sobre quem publiquei quatro livros.

Entre 2001 e 2008 prestei serviços ao Poder Legislativo. Convidado pela saudosa Marialva Biazon, primeira mulher a eleger-se presidente da Câmara de Vereadores, lá montei a assessoria de imprensa e simultaneamente o serviço de cerimonial, tendo então celebrado os 125 anos da instalação da edilidade. Também atendi as mesas presididas por Rogélio Barcheti, Rico Barreto e Luiz Otávio Clivatti, quando propus a instituição da Medalha do Mérito Legislativo “Maneco Dionísio”, outorgada a várias personalidades.

De volta ao Paço Municipal passei a integrar entre 2009 e 2016 a equipe da Secretaria de Comunicação, quando a pasta teve como titulares Marcelo Ortega, Ana Maria Ribeiro e Lucas Mota. Nessa fase fiz parte da redação do Semanário Oficial, em cujas páginas criei as sucessivas colunas “Avaré em memória viva” e “Caminhos de Avaré”, nas quais contei aspectos da crônica local e que resultaram na publicação de cinco livros em forma de coletâneas, além de “Avaré, 150 anos”, primeira obra paradidática sobre a história municipal.

A partir de 2017 resguardei-me no Museu até para evitar que o mesmo fosse desativado após o governo estadual ter extinto a parceria firmada em 1972. No ano seguinte, sugeri e o prefeito Jô Silvestre recriou, por lei, o Museu Municipal Anita Ferreira De Maria, oficializando também o Memorial Djanira, instalado anos antes por seu pai, bem como o Acervo Fotográfico Joaquim Negrão.

Desde então penso ter me tornado quase uma peça museológica. Considero-me um mero “barnabé”, ou seja, um servidor apaixonado pela historiografia regional. Contudo, malgrado os aparentes avanços tecnológicos, noto que havia antigamente mais humanidade e entendimento no convívio entre os colegas e dirigentes durante esse longo tempo.

O meu prontuário prova que nunca tirei licença médica e nem me ausentei sem justificativa. Há três meses, entretanto, precisei faltar por dois dias seguidos para exames clínicos. Desatento, entreguei o atestado médico horas após o prazo e houve recusa. Apelei aos gestores atuais, que me deixaram sem resposta clara e daí me senti desrespeitado, não tanto pelos descontos no holerite, mas infelizmente pela profunda desconsideração.

A hora é, portanto, de finitude. A parte minha já está completa. Correspondi com prazer ao meu papel, antes de mais nada, dignamente como cidadão. E já dou graças por tudo na expectativa da justa aposentadoria. Até porque minhas horas em breve espero sejam docemente enriquecidas pela Manuela, pelo Joaquim e pela Madalena. Afinal, este avô quer, brincando, partilhar com seus netos belos contos, sem se ferir com desencantos desta época da qual já nem faz mais parte. Amém.

 

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Cronista e pesquisador, membro da Academia Botucatuense de Letras e da Academia Sorocabana de Letras, é autor de 55 livros sobre a história de Avaré e região.