A política de Avaré vive um momento de profunda degradação das relações institucionais e de flagrante desrespeito ao organograma público. O alvo mais recente dessa escalada de agressões é a vice-prefeita Kika Monteiro. Após deixar voluntariamente o comando da Secretaria Municipal da Mulher e da Família (SMMF), Kika passou a ser sistematicamente atacada e intimidada nas redes sociais por um servidor público comissionado da prefeitura, José Paulo Santos de Oliveira — que atua na internet sob o nome de “Paulo Proença”.

A conduta do funcionário público, que se autointitula influenciador e jornalista, não apenas viola preceitos éticos elementares, como configura grave desvio de finalidade. Procurada pelo portal in Foco, a vice-prefeita Kika Monteiro declarou categoricamente que não vê motivos reais para as investidas virtuais, que vêm se desenhando como uma clara tentativa de intimidação política.

As investidas do comissionado contra a vice-prefeita utilizam uma cartilha já conhecida na chamada “política do espetáculo”. Em uma de suas postagens recentes, Proença publicou uma arte com o claro intuito de incitar a população contra a mandatária, sugerindo falsamente que Kika Monteiro se recusaria a trabalhar. O servidor tenta forçar uma narrativa intimidatória ao ameaçar realizar transmissões ao vivo com supostas denúncias — alegando o uso indevido de veículo oficial em viagem e supostas pressões de Kika sobre colaboradoras da pasta que ela comandava.

As acusações, sem provas fundamentadas, serviriam em tese, em para tentar promover a nova titular da pasta da Mulher e da Família, a influenciadora digital Pamela Soares, recentemente nomeada pelo prefeito e que conta com o suposto apoio público do comissionado, o mesmo que já cometeu decoro funcional, chamando uma mulher de “cifruda” e outros adjetivos, pelo hipotético fato de ela tê-lo criticado como comissionado.

Demonstrando o isolamento institucional a que vem sendo submetida, Kika Monteiro publicou um vídeo neste segunda-feira, dia 1º, mostrando sua nova rotina de trabalho: a vice-prefeita aparece atendendo ao público completamente sozinha no Centro Administrativo, sem estrutura de apoio condizente com a relevância do seu cargo eletivo.

Os ataques virtuais disparados pelo subordinado administrativo escancaram uma realidade ainda mais profunda em Avaré: o esvaziamento e o desrespeito ao cargo de vice-prefeita. O desrespeito institucional ficou ainda mais evidente após Kika Monteiro emitir uma nota de esclarecimento a respeito da “Marcha para Jesus”. O evento oficial ocorreu no município sem que a vice-prefeita fosse sequer formalmente convidada ou chamada para compor a mesa de autoridades, uma quebra grave de protocolo e liturgia do cargo.

Para apoiadoras e movimentos de defesa dos direitos políticos femininos da região, o pano de fundo das agressões é claro: Kika Monteiro virou alvo por não compactuar com certas diretrizes e situações da atual gestão. Além disso, as críticas apontam que a conduta de Proença é reincidente, sendo ele conhecido localmente por mirar recorrentemente suas investidas contra figuras femininas.

Decoro Funcional e Consequências Judiciais

O comportamento do influenciador comissionado ganha contornos jurídicos preocupantes. O portal in Foco já havia reportado anteriormente que o servidor cometeu decoro funcional. Em termos jurídicos, o desvio de conduta de um agente público comissionado, pago com o erário, que usa seu alcance e tempo para desestabilizar e difamar uma autoridade eleita do próprio município, pode configurar:

  • Improbidade Administrativa: Violação direta dos princípios da moralidade, impessoalidade e lealdade às instituições (Lei nº 8.429/1992).
  • Violência Política de Gênero: Conforme a Lei nº 14.192/2021, é crime focar ações que visem humilhar, menosprezar ou intimidar detentoras de mandato eletivo pelo fato de serem mulheres, com o intuito de dificultar o desempenho de suas funções.
  • Responsabilização Civil e Criminal: Crimes contra a honra (calúnia, difamação e injúria) no ambiente virtual, agravados pelo fato de o agressor ser funcionário público.

Silêncio conivente do Governo e do Partido

Até o fechamento desta reportagem, a administração do prefeito Roberto Araújo manteve um silêncio absoluto sobre a conduta de seu subordinado. O posicionamento inerte do Executivo gera forte desconforto na opinião pública, especialmente em uma gestão que abriga em seu alto escalão um comissionado agressivo e um secretário municipal que carrega em seu histórico uma prisão por agressão física.

O Partido Liberal (PL), legenda sob a qual o governo se sustenta, também preferiu fechar os olhos institucionalmente ao episódio, sem emitir qualquer nota de repúdio aos ataques direcionados à vice-prefeita. A ausência de exoneração ou de um processo administrativo disciplinar contra o comissionado deixa uma mensagem clara de endosso tácito às táticas de intimidação digital em Avaré.