O homem ama a ideia da sorte porque ela alimenta o seu orgulho. Ama a ideia do azar porque ela aplaca a sua culpa. Vencer e atribuir a si o mérito; perder e atribuir ao destino a falha. Eis a equação preferida da vaidade humana: assumir os louros das vitórias e terceirizar a responsabilidade das derrotas.

Pouquíssimos têm coragem suficiente para encarar o que de fato a vida é — uma travessia infinitamente mais brutal, mais complexa e mais imprevisível do que a vontade gostaria. O ser humano consome décadas tentando convencer a si mesmo de que controla a própria existência. E basta um instante para que toda essa convicção se desfaça.

Uma ligação na madrugada.

Um exame. Uma traição. Um acidente.

Uma assinatura. Cinco segundos.

E tudo desmorona.

A verdade incômoda é que a existência humana repousa sobre uma estrutura de uma fragilidade quase obscena. O problema é que o homem moderno detesta a fragilidade. Foi educado a venerar disciplina, inteligência, planejamento e produtividade como se fossem instrumentos capazes de domar o real. Não são. O real não se deixa domar. O real apenas concede tréguas — e mesmo essas, sempre temporárias.

Jean Baudrillard advertia que a sociedade contemporânea vive aprisionada em simulações. As pessoas já não vivem a vida; representam a vida. Simulam felicidade, simulam êxito, simulam força, simulam plenitude. Construíram uma estética da invulnerabilidade na qual admitir medo, dúvida ou impotência tornou-se quase um pecado social. Vivemos sob a tirania da aparência, em que parecer vale mais do que ser, e em que confessar a verdade interior virou sinal de fraqueza.

Então todos fingem.

Fingem que sabem para onde caminham. Fingem que dominam o jogo. Fingem que possuem respostas para perguntas que sequer ousaram formular. Mas basta o chão ceder sob os pés para a verdade se erguer, nua e impiedosa: quase ninguém está preparado para o caos.

E o caos sempre chega. Não como exceção, mas como regra.

A sorte, examinada com honestidade, raramente é o que parece. Muitas vezes não passa de um acontecimento cuja consequência ainda não compreendemos. O azar, igualmente, é frequentemente uma bênção em trajeto disfarçado. O tempo é o único juiz competente nessa matéria — e ele costuma proferir suas sentenças tarde demais para que possamos celebrá-las ou lamentá-las.

Há homens que conquistaram fortunas e perderam a alma no caminho. Há homens que perderam tudo e, no fundo dessa perda, finalmente encontraram a si mesmos. O ser humano, contudo, julga os acontecimentos pela dor ou pelo prazer imediato que produzem, jamais pela profundidade silenciosa de suas consequências futuras.

Uma porta fechada pode salvar uma vida inteira. Uma vitória pode destruir um homem lentamente, ano após ano, com a delicadeza cruel de um veneno administrado em pequenas doses.

Ortega y Gasset afirmava: “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Talvez nenhuma sentença filosófica seja tão exata e, ao mesmo tempo, tão dolorosa. O homem não existe isoladamente. É atravessado pelo tempo, pelo ambiente, pelos encontros, pelas perdas, pelas escolhas alheias e por forças invisíveis que moldam silenciosamente a sua trajetória sem jamais pedir licença.

Existe, portanto, arrogância demais na maneira como julgamos os outros. Chamamos alguém de fracassado sem conhecer as guerras internas que ele travou para permanecer minimamente vivo. Chamamos outro de vencedor sem perceber o vazio colossal escondido por trás do sorriso ensaiado diante das câmeras. Há derrotados aparentes que preservaram aquilo que de mais raro existe no mundo: a dignidade. E há vencedores que, ao longo da subida, abandonaram a humanidade num degrau qualquer e nunca mais voltaram para buscá-la.

A sociedade contemporânea confunde sorte com ostentação. Quem detém dinheiro, fama ou influência recebe automaticamente o selo de bem-sucedido, como se a posse de bens externos atestasse algum tipo de excelência interior. Mas ninguém pergunta quantos remédios essa pessoa precisa para dormir. Quantas vezes pensou em desistir da própria existência. Quantas relações destruiu pelo caminho. Quantas vezes anestesiou a consciência para continuar sustentando o personagem que construiu.

David Foster Wallace dizia que a grande tragédia do mundo contemporâneo não é a falta de informação, mas a ausência de sentido. Nunca tivemos tanto acesso a tudo, e nunca estivemos tão vazios. Nunca produzimos tanto, e nunca soubemos tão pouco para que estamos produzindo. O excesso de estímulo gerou uma espécie singular de pobreza: a pobreza interior dos que possuem demais e habitam a si mesmos de menos.

Talvez resida exatamente aí a obsessão coletiva pela sorte. Acreditar que a felicidade depende apenas de um golpe favorável do destino é infinitamente mais confortável do que encarar o vazio existencial que se carrega. O homem prefere imaginar que lhe falta oportunidade. Raramente admite que lhe falta profundidade. É mais fácil culpar o universo do que assumir o trabalho silencioso, lento e ingrato de construir, dentro de si, um homem digno de ser habitado.

E aqui se descortina uma das ironias mais cortantes da existência: Há pessoas que sobreviveram ao pior e se tornaram luz.

Há pessoas que receberam tudo e se tornaram escuridão.

O sofrimento não melhora automaticamente ninguém. Essa é uma das maiores romantizações baratas do nosso tempo. A dor não enobrece por si mesma; apenas revela aquilo que já existia escondido. Diante da mesma tempestade, alguns amadurecem. Outros apodrecem. O fogo não santifica a madeira: apenas mostra a sua natureza.

Nietzsche escreveu que “quem tem um porquê suporta quase qualquer como”. Mas o homem contemporâneo perdeu o porquê. Vive anestesiado entre distrações, entre rolagens infinitas de tela, entre validações públicas que duram poucos segundos e exigem ser renovadas no instante seguinte. Corre o tempo todo, mas raramente sabe para onde corre, nem por que corre, nem do que foge.

Por isso qualquer perda lhe parece o fim do mundo. Perde dinheiro e perde a identidade, porque construiu a identidade sobre o dinheiro. Perde status e perde a autoestima, porque amarrou a autoestima ao olhar dos outros. Perde alguém e descobre, tarde demais, que jamais aprendeu a existir sozinho — porque o silêncio, em algum ponto da vida, deixou de ser refúgio e passou a ser ameaça.

Talvez o verdadeiro azar não seja sofrer. Talvez o verdadeiro azar seja viver superficialmente demais.

Superficial demais para amar com profundidade. Superficial demais para suportar o silêncio. Superficial demais para encarar a própria consciência sem fugir. Superficial demais para compreender que a vida jamais prometeu estabilidade — e que exigir dela aquilo que ela nunca se propôs a entregar é a fonte primeira de toda angústia.

Existe uma brutalidade silenciosa no tempo. Ele destrói certezas. Corrói vaidades. Envelhece rostos. Desmonta personagens construídos com esmero ao longo de décadas. Revela intenções que pareciam para sempre sepultadas. O tempo é o único inquisidor de quem ninguém escapa, e o seu interrogatório, embora lento, é absolutamente implacável.

No fim, quase tudo aquilo que o homem chamou de sorte ou de azar perde a importância. Porque chega um momento — e esse momento sempre chega — em que a vida formula uma única pergunta:

 

“O que você se tornou depois de tudo que viveu?”

 

 E talvez esta seja a única pergunta que verdadeiramente importa. Pois há quem atravesse o inferno e preserve intacta a capacidade de amar. E há quem atravesse palácios e, no caminho, se transforme em monstro.

A sorte pode abrir portas. O azar pode derrubá-las. Mas nenhum dos dois possui poder suficiente para definir, integralmente, um homem.

O que verdadeiramente o define é aquilo que permanece dentro dele quando o acaso encerra o seu espetáculo, quando as luzes se apagam,  quando  a  plateia  se  retira  —  e  a  vida,  fria  e silenciosamente,       o    obriga      a     encarar,      sem     máscaras      e     sem desculpas, quem ele de fato se tornou.

 

© Renato Gonçalves da Silva

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