A Polícia Civil de Avaré apresentou, em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (17), o esclarecimento do homicídio de Jennifer Eduarda da Cruz Blimblem, de 18 anos, ocorrido em setembro de 2021. Após quase cinco anos de investigação, a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) apontou a participação de três pessoas no crime. Dois homens, de 28 e 23 anos, foram presos temporariamente no sábado (15), enquanto uma terceira investigada permanece em liberdade.

A coletiva, realizada na Delegacia Seccional, reuniu o delegado seccional Fabiano Ribeiro Ferreira da Silva, o delegado titular da DIG, Adriano Leite de Assis, os chefes dos investigadores da Seccional e da DIG, Alexandre Novaes Costa Aurani e Mario Celestino, além do coordenador do Centro de Inteligência Policial da DIG, José Manhez Filho. A DIG informou que representará pela conversão das prisões temporárias em preventivas.

Relembre o caso

Jennifer desapareceu na noite de 24 de setembro de 2021 e foi encontrada morta seis dias depois, em uma área rural do município. O exame necroscópico apontou traumatismo cranioencefálico provocado por ação contundente como a causa da morte. A investigação começou quando o hoje Delegado  Seccional Fabiano ainda comandava a DIG e prosseguiu por anos com perícias, exames, depoimentos e centenas de diligências.

Mesmo sem autoria definida nos primeiros anos — período em que o crime permaneceu sem solução e gerou comoção na comunidade —, a DIG manteve o inquérito ativo e as investigações do caso. A reviravolta ocorreu após duas denúncias anônimas recebidas em 2025 e 2026, que levaram os investigadores a revisar depoimentos e confrontar novos dados com vestígios e provas preservados desde 2021.

Avanço nas apurações e prisões

Entre os elementos decisivos estava um Volkswagen Santana vinho, pertencente ao investigado de 28 anos. Testemunhas confirmaram que Jennifer esteve com o grupo na noite do desaparecimento e deixou o local na companhia dos três suspeitos. Em agosto, a mulher investigada passou a colaborar com a DIG, fornecendo informações que impulsionaram as novas diligências.

A prisão temporária da mulher não foi requerida, mas a DIG apontou a necessidade de prender os dois homens para evitar a combinação de versões ou a eliminação de provas. A colaboração da investigada não afasta sua eventual responsabilidade criminal.

Delegado titular da DIG, Adriano Leite de Assis
Delegado seccional Fabiano Ribeiro Ferreira da Silva

Versões conflitantes e confissões

Após as prisões, os investigados apresentaram relatos divergentes, mas admitiram pontos vitais. O homem de 28 anos confirmou que dirigia o Santana e que estava na estrada de terra com Jennifer, o jovem de 23 anos e a mulher. Ele declarou que o rapaz de 23 anos iniciou os golpes com uma faca e usou um objeto metálico do próprio carro contra a cabeça da vítima, admitindo ainda ter erguido uma cerca para a passagem do corpo e retornado mais tarde ao local.

Já o preso de 23 anos negou o uso da faca, mas admitiu ter atingido a cabeça de Jennifer duas vezes com uma barra de ferro — declaração que coincide com o laudo necroscópico. Ele também reconheceu a ajuda na ocultação do cadáver e a volta ao local do crime.

A investigação apura ainda um possível pacto de silêncio após o crime. O homem de 28 anos foi questionado sobre um suposto “pacto de sangue” com a terceira investigada para que os fatos não fossem revelados. Já o preso de 23 anos atribuiu seu silêncio durante quase cinco anos ao medo.

Para a DIG, embora os presos tentem atribuir um ao outro maior responsabilidade pelas agressões, suas declarações convergem em aspectos importantes e encontram respaldo em elementos externos: ambos estavam com Jennifer, o Santana aparece na reconstrução da noite do crime e o homem de 23 anos admite os dois golpes na cabeça da vítima.

As buscas resultaram na apreensão de celulares, computadores, notebooks, HDs, pendrives, cartões de memória e outros dispositivos. Uma faca também foi recolhida na diligência relacionada ao investigado de 23 anos, mas somente a perícia poderá estabelecer eventual relação do objeto com o homicídio.

Com o avanço das diligências, Adriano Leite de Assis informou que representará pela prisão preventiva dos investigados. Os materiais apreendidos serão periciados e as informações extraídas dos dispositivos confrontadas com os demais elementos do inquérito.

Na coletiva, Adriano ressaltou que as divergências entre os presos precisam ser separadas daquilo que encontra confirmação independente. “Os próprios investigados apresentam divergências sobre a atuação de cada um, mas há circunstâncias centrais que se repetem e encontram respaldo em testemunhas e na prova técnica”, afirmou.

O delegado também destacou a persistência da DIG ao longo dos anos. “Esse inquérito nunca ficou esquecido. Foram anos de trabalho, muitas diligências e revisão constante das informações”, declarou. Segundo ele, a preservação de vestígios, laudos e depoimentos permitiu confrontar os novos elementos e chegar ao esclarecimento do caso.

O inquérito prossegue com perícias, análise dos equipamentos apreendidos e diligências destinadas a definir com precisão a responsabilidade individual de cada investigado. Concluída essa etapa, os autos serão encaminhados à Justiça para as providências cabíveis.

 

Detalhes sórdidos

Embora a identidade dos suspeitos não tenha sido divulgada, os delegados revelaram  alguns detalhes do bárbaro crime. Segundo a mulher, ela e o então companheiro, seriam os mentores do crime. A motivação? “Apenas saber como seria matar uma pessoa”. O terceiro envolvido, que fazia parte do grupo,  teria ainda perguntado se poderia estuprar a vítima antes de matá-la, mas não chegou a fazê-lo de acordo com a mulher.

As autoridades afirmaram que Jennifer foi escolhida aleatoriamente porque teria sido vista várias vezes sozinha na Feira da Lua (onde o grupo encontrou a vítima), sendo um ‘alvo fácil’, como realmente se provou ser infelizmente.

Jennifer estaria alcoolizada no momento dos golpes: uma facada no pescoço, outras no abdômen e por final o golpe final na cabeça com barra de ferro. Os delegados e investigadores concordaram que foi na verdade uma emboscada.

Depois de ter assassinado a vítima deixando-a na área encontrada, um dos integrantes percebeu que teria esquecido o óculos no local; com isso o grupo voltou depois de abastecer o carro e decidiu queimar o corpo.

O casal que teria planejado o crime está separado hoje, mas chegou a fazer um pacto de sangue segundo depoimento da mulher que se diz arrependida. Ela afirma ainda que o companheiro na época chegou a dizer que queria repetir o crime escolhendo outra vítima.

O in Foco segue acompanhando o desdobramento das investigações e parabeniza o brilhante trabalho da Polícia Civil.