Foto USU.EDU

Uma pesquisa de repercussão internacional desenvolvida na Utah State University (USU), nos Estados Unidos, acaba de transformar o conhecimento científico sobre o reconhecimento da gravidez em ruminantes. O estudo invalidou uma teoria fundamental mantida como dogma incontestável por mais de quatro décadas na biologia reprodutiva animal.

A conquista traz em seu cerne um motivo de enorme orgulho para Avaré: Heloisa Moreno Rutigliano, coautora do artigo, é avareense nata, filha da professora Juliana Moreno Rutigliano e do engenheiro agrônomo Marcos Book Rutigliano.

Graduada pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp (Câmpus de Botucatu), Heloisa construiu uma carreira acadêmica brilhante nos EUA. Atualmente, é docente e pesquisadora do Departamento de Ciências Clínicas e Biológicas Veterinárias e do Departamento de Ciências Animais da USU — instituição onde já foi condecorada com o prestigiado prêmio “Eldon J. Gardner – Professora do Ano”.

A descoberta que desafia a ciência reprodutiva

O artigo científico, intitulado “Gravidez em ovelhas com deleção do receptor de interferon tipo I (IFNAR2) desafia o paradigma aceito para o reconhecimento da gravidez em ruminantes”, foi publicado na edição de agosto de 2026 da conceituada revista científica Biology of Reproduction.

Desde as décadas de 1960 e 1970, a comunidade científica global acreditava que uma proteína específica — o interferon tau, produzido pelo feto/placenta no início da gestação — era o sinal indispensável enviado ao organismo da ovelha para “avisar” sobre a gravidez e manter os níveis de progesterona necessários para sustentar o feto. Essa premissa fundamentou mais de 1.900 trabalhos científicos ao longo dos anos.

No entanto, utilizando avançadas tecnologias de edição genética e clonagem animal, a equipe da USU — composta por Christopher J. Davies, Heloisa Rutigliano, Irina A. Polejaeva, Young-Min Lee, Evan K. Peterson, Aaron J. Thomas e Andrea L. Giles — testou diretamente essa hipótese em um modelo ovino com o receptor de interferon inativado.

Para surpresa da comunidade acadêmica, as ovelhas sem receptores funcionais para a proteína mantiveram os níveis de progesterona elevados e deram à luz cordeiros perfeitamente saudáveis. O experimento provou, de forma inequívoca, que a sinalização via receptor clássico de interferon tipo I não é essencial para o estabelecimento e a manutenção da gestação em ruminantes.

“As novas tecnologias nos permitem revisitar e testar diretamente ideias que foram aceitas por décadas. Quando novas evidências desafiam esses conceitos, isso não diminui a ciência que veio antes; é exatamente assim que a ciência avança. Esse processo constante de questionamento e revisão é o que torna a descoberta científica tão dinâmica.”

— Dra. Heloisa Rutigliano, em declaração sobre a repercussão do estudo.

Repercussão e novos horizontes

A publicação gerou grande debate em congressos internacionais e recebeu destaque editorial assinado por Alan D. Ealy, do Instituto Politécnico da Virgínia (Virginia Tech). Ealy ressaltou que a equipe respondeu de forma categórica a uma dúvida histórica, abrindo caminho para novas investigações sobre a verdadeira função reprodutiva do interferon tau e abrindo portas para otimizar o manejo e a fertilidade de rebanhos em todo o mundo.

A pesquisa contou com financiamento do Instituto Nacional de Alimentação e Agricultura do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA/NIFA).

Para Avaré, o feito reforça a força do talento local projetado globalmente: uma trajetória iniciada nas salas de aula da Unesp e coroada no topo da pesquisa científica mundial.

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