
Uma abordagem realizada pela Polícia Militar Rodoviária na madrugada da última terça-feira, 3 de novembro , na Rodovia Cândido Portinari, na região de Franca (SP), resultou na prisão em flagrante de dois homens e na apreensão de veículos e apetrechos de uso restrito.
Entre os envolvidos está Giovani Clauan Alves Daltio, presidente da EMAPA (Exposição Municipal Agropecuária e Industrial de Avaré) e figura ligada a polêmicas políticas no município e ao prefeito Roberto Araujo, já que é vice-presidente do PL, partido de ambos. O caso ganhou contornos graves ao envolver o uso irregular de placas de representação da Procuradoria-Geral da Estância Turística de Avaré, distintivo da Polícia Civil e algemas da Penitenciária II de Avaré.
De acordo com o boletim de ocorrência registrado na Delegacia Seccional de Franca, o episódio teve início por volta da 1h08, no km 374, nas proximidades da praça de pedágio de Restinga (SP). Equipes realizavam fiscalização de rotina quando visualizaram uma caminhonete Toyota Hilux preta e um automóvel Toyota Corolla branco trafegando em alta velocidade.
A Hilux transpôs a cancela do pedágio sem efetuar a parada obrigatória. Na sequência, o Corolla passou pela mesma faixa, acionando o sistema de alarme sonoro. Os policiais notaram que a placa traseira do Corolla estava completamente dobrada, manobra típica adotada para burlar radares e fiscalizações eletrônicas.
Após o acionamento de apoio de equipes da Polícia Militar de Franca, o Corolla — com placas de Ourinhos e registrado em nome de terceiros — foi interceptado na Rua Carlos Roberto Haddad. O veículo era conduzido por Alessandro Roberto Juvencio e tinha como passageiro João Paulo Rolim Marques Junior. Questionados, os ocupantes alegaram que prestavam serviços para o Procurador-Geral do Município de Avaré (identificado como Renan) e que seguiam para Ibiraci (MG) para uma suposta prestação de serviços. Admitiram, ainda, que haviam desembarcado momentos antes do trajeto para desdobrar a placa traseira.
Pouco depois, a Toyota Hilux compareceu ao local da abordagem. O veículo era conduzido por Giovani Clauan Alves Daltio e levava como passageiro Mauricio Morgado dos Anjos.
Material de uso restrito e placas oficiais
Durante a revista minuciosa realizada nos veículos, os policiais militares rodoviários encontraram diversos artefatos que transformaram uma simples fiscalização de trânsito em um caso de polícia judiciária de alta gravidade:
- Um distintivo oficial da Polícia Civil do Estado de São Paulo, completo com colar e chave-lacre;
- Uma algema da marca CBC com a identificação gravada “PII Avaré” (referência à Penitenciária II de Avaré);
- Duas placas de representação oficial da Procuradoria-Geral da Estância Turística de Avaré (identificadas como Avaré/SP e AP nº 100), que estavam sobrepostas às placas originais dos automóveis;
- Um sinalizador refletivo (highlight).
Questionado sobre os apetrechos e a viagem durante a madrugada, Giovani Daltio alegou que o veículo Hilux pertencia à sua empresa e que utilizava as placas de representação da Procuradoria sob a justificativa de circular vinculado a uma autoridade do Executivo municipal. No entanto, nenhuma autoridade competente acompanhava os suspeitos no momento da abordagem.
Em contato telefônico com a proprietária registral do Toyota Corolla, esta esclareceu que o veículo era mantido irregularmente por seu ex-cônjuge e negou que ele exercesse o cargo de Procurador Municipal. O advogado de defesa compareceu posteriormente à delegacia apresentando portarias e documentos de nomeação do atual Procurador-Geral, mas a situação irregular dos apetrechos e dos veículos motivou providências severas da autoridade policial.
Prisão em flagrante e histórico polêmico
Diante do conjunto probatório, que incluiu versões contraditórias, horário incompatível de circulação (madrugada), alta velocidade, placas ocultadas e o porte ilegal de símbolos de autoridade policial e penitenciária, a autoridade policial de Franca decretou a prisão em flagrante de Alessandro Roberto Juvencio e Giovani Clauan Alves Daltio.
Os indiciados foram autuados por adulteração de sinal identificador de veículo automotor (artigo 311, parágrafo 2º, inciso III, do Código Penal), desobediência (artigo 330) e infrações ao Código de Trânsito Brasileiro. A fiança foi veementemente negada pela autoridade policial devido à gravidade abstrata dos delitos e às vedações legais. Ambos foram encaminhados à Cadeia Pública de Franca, onde permanecem à disposição da Justiça, enquanto os celulares e veículos foram apreendidos para perícia técnica aprofundada.
Perfil e repercussão em Avaré
A prisão de Giovani Clauan Alves Daltio repercutiu fortemente em Avaré, cidade onde atua como empresário e à frente da EMAPA. Daltio carrega um histórico de episódios controversos amplamente noticiados pelo portal in Foco.
Registros judiciais e investigações anteriores apontam que Daltio é ex-policial militar, tendo sido formalmente expulso da corporação em maio de 2022 após responder por atos considerados desonrosos — especificamente por depredação de veículo —, contrariando narrativas que o próprio tentava emplacar publicamente sobre seu desligamento.
Nos últimos meses, o nome de Daltio também esteve no centro do debate público em Avaré devido a denúncias de uso político da estrutura da EMAPA e à veiculação de listas de boicote direcionadas a comerciantes, profissionais liberais e veículos de imprensa independentes da cidade que estariam sendo repassadas por ele em grupos de whatsApp. Recentemente, o ex-policial foi investigado por crimes de injúria, perseguição e violência psicológica após direcionar ataques e ameaças públicas contra a jornalista Cida Koch, do in Foco, em retaliação ao jornalismo investigativo que expõe constantemente suas irregularidades e condutas à frente de entidades públicas e partidárias.
A ocorrência registrada em Franca adiciona um capítulo alarmante à trajetória de Daltio, reacendendo discussões sobre o uso indevido de insumos oficiais, distintivos e prerrogativas públicas por figuras ligadas a esferas de poder local. As investigações prosseguem na delegacia de área para apurar a extensão da rede de contatos e a real finalidade dos artefatos apreendidos.




































