A apuração dos votos no município voltou ao centro dos debates na sessão da Câmara Municipal de Avaré promovida na última segunda-feira (5). Durante os discursos em plenário, alguns vereadores manifestaram insatisfação com a expressiva votação obtida na cidade por candidatos a deputado que não possuem histórico de atuação no município e sequer conhecem a realidade local.

Na corrida por uma vaga de deputado estadual, por exemplo, a candidata mais votada no eleitorado avareense foi Eduarda Campopiano (PL), que somou 4.869 votos na cidade. De perfil conservador e antifeminista, a candidata não tem laços nem histórico de trabalho prestado em Avaré. Na mesma disputa, outros nomes registraram votações menores na cidade, a exemplo de Silvano Porto (PT), que contabilizou 1.901 votos no município.

Quadro para a Câmara dos Deputados (Federal)

A tendência de preferência por nomes de fora da região também se repetiu na escolha para deputado federal. O candidato mais votado em Avaré foi o também conservador Lucas Pavanato (PL), figurando no topo das escolhas do eleitorado local mesmo sem possuir vínculos com a cidade. A segunda colocação na votação para a Câmara Federal em Avaré ficou com o candidato da terra, Marcelo Ortega, que obteve 6.273 votos entre os eleitores do município.

Entre as curiosidades do pleito no quadro federal, o candidato Manoel Gomes, conhecido como “Caneta Azul” (Avante), registrou 9 votos na cidade.

Preocupação com a representatividade regional

Durante as manifestações na tribuna, os vereadores destacaram que a pulverização de votos em parlamentares sem compromisso formal com a cidade prejudica a representatividade de Avaré junto aos governos estadual e federal. A principal crítica reside no fato de que candidatos sem vínculos com o município raramente revertem a votação recebida em emendas parlamentares ou investimentos para a infraestrutura, saúde e educação locais.

 

Gastos com campanhas

Os candidatos a deputado estadual e federal mais votados em São Paulo investiram mais de 50% do valor gasto na campanha eleitoral para impulsionar conteúdos nas redes sociais. Ambos são do PL.

Lucas Pavanato, eleito deputado federal, gastou R$ 1,352 milhão com impulsionamento de conteúdos – o que corresponde a 50,02% do total de R$ 2.702.190,9 em despesas de campanha. Ele recebeu 3.038.438 votos, tornando-se o parlamentar com o maior número de votos já recebidos na história do estado.

Eduarda Campopiano, eleita deputada estadual, investiu ainda mais nas redes sociais, em termos proporcionais. A atual vereadora de Praia Grande, no litoral paulista, dedicou 61,13% do orçamento eleitoral para a disseminação de conteúdo na internet – ou R$ 400 mil de um total de R$ 654.315,52. Ela foi eleita com 1.956.238 votos, sendo a candidata ao Legislativo com mais votos em São Paulo nestas eleições.

O montante gasto por Campopiano com impulsionamento em redes supera em mais de quatro vezes o valor gasto atividades de militância e mobilização de rua. Foram R$ 400 mil nas redes, ante R$ 94,3 mil na rua.

Já Lucas Pavanato investiu significativamente menos, do ponto de vista proporcional, com atividades “tete-a-tete” com o eleitor. Ele dedicou apenas 5,04% do orçamento eleitoral (R$ 136.142,00) com ações na rua – 10 vezes menos do que com ações nas redes.

As duas candidaturas foram financiadas majoritariamente pela direção nacional do PL. Pavanato recebeu R$ 3.082.120,04 para sua campanha, dos quais R$ 2,86 milhões (92,79%) vieram do PL.

Campopiano, por sua vez, teve R$ 755.187,79 para investir na campanha à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Desse total, R$ 700 mil (92.69%) saíram do PL. Ela também recebeu R$ 25 mil em doações do próprio Pavanato.

 

Quem é Lucas Pavanato

Aos 26 anos, Lucas Pavanato ganhou projeção política como militante do Movimento Brasil Livre (MBL), com o qual rompeu, e abraçou o bolsonarismo. Em 2024, ele foi eleito como o vereador mais votado da cidade de São Paulo, com 161.386 votos.

As principais pautas que Pavanato pretende levar para a Câmara dos Deputados são proibir terapia hormonais de transição de gênero em menores de 18 anos, fim das cotas raciais, cotas de gênero e cotas para a população trans, fim da maioridade penal em crimes hediondos, acabar com o aborto, privatização de empresas estatais e proibir pessoas trans em banheiros diferentes do sexo biológicos.

Nesse pleito, Pavanato protagonizou uma rivalidade com a deputada federal reeleita Erika Hilton (Psol), que se tornou a mulher mais votada na história da Câmara e projetava o topo do ranking paulista.

Pavanato atribui a alta votação à presença forte do conservadorismo em São Paulo. O novo deputado federal também ganhou popularidade por provocar estudantes da Universidade de São Paulo (USP) com questões políticas. O parlamentar costuma montar uma mesa com cartazes. Em maio de 2025, o tema era “Bolsonaro é melhor que Lula! Prove o contrário”.

Na posição de vereador, ele apresentou 100 projetos de leis. Desses, apenas seis foram aprovados, outros 94 seguem em tramitação. Entre eles, a criação do Dia da Música Clássica nas escolas municipais; a troca de nome do viaduto Bresse-Romualdo Hatty para viaduto Bispa Keilla Ferreira; e inclusão na agenda da cidade o Dia Municipal de Combate a Violência Infantil.

Em março de 2026, o vereador protocolou proposta para acabar com as cotas raciais em concursos públicos municipais. Em substituição, seriam colocadas cotas para pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.

 

Quem é Eduarda Campopiano

Natural de Campinas, no interior de São Paulo, Eduardo Campopiano tem 23 anos e foi eleita vereadora de Praia Grande, litoral paulista, nas eleições municipais de 2024, tendo recebido 3.583 votos.

Entre 2025 e 2026, a jovem foi autora de 20 projetos de lei no município, entre os quais, um que dispõe sobre a criação de um programa de prevenção à violência doméstica contra crianças e adolescentes e outro que proíbe a nomeação ou contratação, para determinados cargos e empregos públicos, de pessoas condenadas por crime sexual também contra crianças e adolescentes.

No perfil oficial no Instagram, a agora deputada estadual eleita se descreve como “a maior inimiga das feministas de São Paulo”. Nas redes sociais, em que acumula mais de 2 milhões de seguidores, Campopiano já gravou conteúdos em que se diz contra o uso do termo “feminicídio”, apesar da alta de casos no estado.

Conservadora e cristã, Eduarda Campopiano já declarou publicamente ser contra o aborto e a favor da redução da maioridade penal. Também já afirmou que é contrária à política de cotas em concursos públicos e universidades.

 

(Fonte parcial Metropoles)