
O envelhecimento populacional é uma realidade incontornável no Brasil, mas em Avaré o cenário ganha contornos de urgência humanitária. O município, historicamente reconhecido por abrigar uma das maiores proporções de idosos do estado de São Paulo, enfrenta hoje o reflexo da omissão estrutural.
A cidade foi inclusive esteve entre as vinte primeiras do país a se destacar por oferecer boas condições de vida para as pessoas com mais de 60 anos, segundo o Índice de Desenvolvimento Urbano para Longevidade, elaborado pelo Instituto de Longevidade Mongeral Aegon em parceria com a FGV e divulgado 5 anos atrás.
Hoje, por trás das portas de muitas residências, a vulnerabilidade da terceira idade não se limita à perda natural da autonomia; ela se manifesta na forma cruel da violência doméstica e na insolvência de uma rede de assistência social asfixiada pela burocracia. A busca por uma vaga em casas de repouso, necessárias na maioria dos casos, torna-se uma via crucis.
Além da dificuldade da vaga, muitos idosos sofrem dentro de casa de um tipo de “violência oculta” . Uma denúncia desesperada trazida com exclusividade ao portal in Foco joga luz sobre um drama familiar que sintetiza o colapso local e ilustra a situação caótica do sistema.
Há alguns anos, uma dona de casa mudou-se da capital paulista para Avaré com o objetivo de amparar os sogros — ela com 90 anos, diagnosticada com demência senil, e ele com 88 anos. O que deveria ser um ciclo de cuidado transformou-se em um pesadelo de agressões psicológicas crônicas cometidas pelo próprio marido da idosa. A situação atingiu o ápice da gravidade quando o idoso de 88 anos, em um surto, tentou enforcar a nora, que chegou a desmaiar e só foi salva pela intervenção do neto.
A decisão de assumir os cuidados em tempo integral partiu do filho único e da nora, diante da deterioração mental da idosa e da agressividade do companheiro de quase uma vida inteira. Registros obtidos por câmeras de segurança instaladas na residência comprovaram o cotidiano de maus-tratos mentais, verbais e abusos físicos velados. Em áudios perturbadores anexados à denúncia, revelam-se práticas bárbaras de negligência cometidas pelo agressor contra a idosa vulnerável:
“É muito triste… Ele não deixa ela beber água, porque se não ela vai fazer xixi na fralda à noite. Ele larga ela no banho e não lava direito. Eu peguei ela para mim, cuidei, passei Hipoglós porque ela estava assada… É muito doloroso para mim toda essa situação”, revela a mulher que prefere não se identificar dada a delicadeza do tema.
A recusa em fornecer água para evitar o manejo de fraldas e o abandono em condições precárias de higiene são algumas das práticas constatadas que evidenciam que a violência doméstica na velhice é, muitas vezes, uma tortura em doses homeopáticas. Sem o suporte físico e a vigilância constante do filho e da nora, a idosa de 90 anos estaria submetida a um desfecho fatal dentro do próprio lar.
A burocracia do CRAS e CREAS
Diante do atentado contra a própria vida e da iminência de uma tragédia maior, a família buscou o amparo do Estado. No entanto, o acolhimento institucional transformou-se em um segundo calvário. Ao procurar o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), a nora apresentou as gravações que comprovam os crimes. A resposta inicial, segundo o relato, esbarrou no desinteresse: os funcionários teriam se recusaram a assistir aos vídeos dos maus-tratos.
Ainda assim, uma visita técnica foi realizada e o caso foi encaminhado ao Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). “Uma enorme burocracia enquanto ela corre riscos”, desabafa a denunciante. Diante da promessa de que haveria uma vaga de urgência disponível, a família arcou com consultas e exames particulares na tentativa de acelerar os laudos exigidos pela máquina pública.
A maior surpresa, contudo, ocorreu durante a triagem realizada por uma instituição de longa permanência local. Sob a alegação de que a idosa apresentava um quadro avançado de “demência senil grau 3”, a vaga foi sumariamente negada. O laudo médico oficial da especialista atestava apenas demência senil, gerando indignação na família. “Não sabia que assistente social é mais que médico”, ironiza a nora, criticando também a abordagem inadequada dos avaliadores, que tentaram constranger a paciente nitidamente desorientada a ditar regras contratuais.
Outro ponto alarmante destacado na denúncia refere-se à condução financeira dos processos de acolhimento. A família relata que os entrevistadores interrogaram diretamente a idosa de 90 anos sobre o valor de sua aposentadoria, detalhando a ela que 70% dos vencimentos seriam retidos pela instituição e 30% restariam para suas despesas.
“Tiveram a capacidade de perguntar para ela quanto ela ganhava… Por que falar isso para ela, que não entende bulhufas, e não para mim ou para o filho? Isso me deixou muito indignada”, questiona a cuidadora. A falta de sensibilidade técnica para lidar com pacientes cognitivamente debilitados expõe uma distorção grave nas prioridades do atendimento social e filantrópico na cidade.
Realidade Demográfica e a Omissão do Poder Público
O drama desta família expõe a ferida aberta no acolhimento a idosos em Avaré. Atualmente, o tempo médio estimado para a liberação de uma vaga de acolhimento emergencial via solicitação administrativa ou judicial varia de três a seis meses. Em situações de violência doméstica ativa, esse intervalo de tempo é uma sentença de morte. Como resume de forma contundente a denunciante: “Cadê o prefeito nisso? Tem que abrir solicitação para vaga de urgência de 3 a 6 meses. Até lá minha sogra já morreu ou o sogro matou ela. Precisa morrer um para entrar outro”, desabafa.
A decisão da família de, mais uma vez, “dar um jeito em casa” e manter a idosa sob sua proteção integral evita que ela engrosse as estatísticas de óbitos por negligência, mas não exime o poder público de sua responsabilidade. Avaré carece urgentemente de um plano estruturado de expansão de vagas em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) públicas ou subsidiadas, além de um protocolo de proteção rápida que retire a vítima do ambiente agressor sem exigir o cumprimento de prazos burocráticos que ignoram a iminência da morte.
Nota da Redação: O portal in Foco manterá o sigilo da identidade dos envolvidos para resguardar a integridade física da família. Este espaço permanece aberto às manifestações da Secretaria Municipal de Assistência Social de Avaré, dos órgãos gestores do CRAS/CREAS e das instituições mencionadas para os devidos esclarecimentos sobre os critérios de triagem e a real disponibilidade de vagas de urgência.




































