
O que era para ser apenas uma celebração de cidadania e união comunitária acabou se transformando em um debate acalorado sobre os limites da intervenção em patrimônios públicos; uma pista de skate revitalizada pela comunidade de um bairro de Avaré teve o nome de Jesus desenhado e depois teve que ser apagado, por falta de autorização.
Para quem não se lembra, recentemente moradores do bairro Vera Cruz se mobilizaram para limpar, restaurar e devolver à comunidade a pista de skate local, que se encontrava em estado de total abandono.
Cansados de esperar pelo poder público, os próprios moradores decidiram agir. Com o apoio de patrocinadores da iniciativa privada e dados de mapeamento de abandono (conforme repercutido pelo portal In Foco), o grupo realizou um mutirão de limpeza e restauração da pista de skate.
Para dar vida e cor ao local, o artista e grafiteiro Vitor Castanheira foi convidado para estampar sua arte nas paredes da pista. O objetivo era claro: transformar um ambiente antes marcado pelo descaso em um polo de cultura, esporte e lazer para as crianças da região.
A controvérsia começou após a conclusão de um painel que trazia a palavra “JESUS”. Por falta de uma autorização formal e por escrito por parte da administração municipal, os organizadores foram notificados a apagar a palavra do local.
O munícipe Anderson Costa, um dos líderes do movimento de revitalização, desabafou em suas redes sociais ao comunicar a remoção da pintura:
“Tivemos que remover o nome JESUS da pista de skate do Vera Cruz. Nós não tivemos autorização da prefeitura por escrito para escrever JESUS. Confesso que nunca imaginei que um dia alguém se incomodaria com o nome JESUS. Obrigado a todos que nos ajudaram a trazer um ambiente mais agradável para o local”, desabafou.
O artista Vitor Castanheira também manifestou sua indignação com a medida, ressaltando o papel social do grafite feito na comunidade: “É triste perceber que, enquanto alguns lutam para transformar um lugar abandonado em um espaço de cultura, esperança e alegria para as crianças, outros fazem de tudo para impedir. O grafite que fizemos não era apenas tinta na parede. Era um símbolo de mudança. Um recado de que aquele espaço podia deixar de ser lembrado pelas drogas e pelo abandono para ser lembrado pelos sorrisos, pela arte e pela comunidade”, declarou o grafiteiro, que aproveitou para fazer um apelo a vereadores e à prefeitura para que apoiem o projeto.
O Outro Lado: Legalidade e Laicidade do Estado
Em contrapartida aos desabafos dos idealizadores, o posicionamento que defende a atuação da prefeitura e as regras de uso do espaço público ganhou força através de interações nas redes sociais.
Um perfil sob o nome de Rafaella Rocha — apontado por internautas como um suposto perfil vinculado à gestão municipal — rebateu as críticas de Anderson Costa, argumentando sob a ótica da legalidade e do respeito à coletividade:
“A pista de skate do Vera Cruz é patrimônio público, não é tela para intervenções particulares. Independentemente da fé de cada um, vivemos em uma sociedade plural. Há pessoas de diferentes religiões, pessoas sem religião e todas merecem o mesmo respeito”, escreveu o perfil.
De acordo com o posicionamento, a intervenção teria violado o padrão visual do município e foi feita sem o aval dos órgãos competentes.
O perfil alertou ainda que modificações sem autorização, mesmo que bem-intencionadas, configuram intervenção irregular e podem gerar responsabilização administrativa, civil e penal. “Boas intenções não substituem a observância da lei. É possível que já exista estudo técnico, projeto de engenharia ou planejamento da administração para a recuperação desse espaço”, concluiu.
Apesar do revés com o apagamento da pintura, os moradores garantem que a conquista de ter o espaço limpo e transitável não será perdida. A prefeitura, responsável pela limpeza que foi feita pelos moradores, não se manifestou ainda sobre o caso.






































