
A realização da 1ª Festa Junina de Avaré, ocorrida entre os dias 11 e 14 de junho no Parque de Exposições Dr. Fernando Cruz Pimentel (EMAPA) em Avaré está sendo questionada com relação a aplicação de verbas públicas no município que necessitam de apuração.
O evento, promovido pela Prefeitura de Avaré, teve a participação de artistas com contratações suspeitas em repasses do Ministério do Turismo que atualmente estão sob investigação pela Polícia Federal (PF).
A Polícia Federal apontou que emendas parlamentares atribuídas ao parlamentar Valdemar Costa Neto (PL) – mesmo partido do governo Roberto Araujo – financiaram shows artísticos em municípios do interior paulista, como Guaimbê, Iepê e Macedônia. A investigação aponta o uso irregular de verbas federais repassadas via Ministério do Turismo para apresentações de duplas sertanejas
Em Guaimbê, uma emenda de R$ 280 mil foi usada para pagar o show da dupla Thaeme & Thiago na 21ª Festa do Peão de Boiadeiro. A cidade de Iepê utilizou R$ 250 mil para custear apresentações artísticas, incluindo Thaeme & Thiago e a banda Traia Vελveia. Já em Macedônia, os recursos federais pagaram o show da cantora Mariana Fagundes no aniversário da cidade.
Relatórios recentes divulgados pela PF apontam a apuração de esquemas envolvendo emendas parlamentares destinadas a municípios do interior paulista, cujos recursos — liberados via convênio federal — foram integralmente canalizados para o pagamento de apresentações artísticas com cachês inflacionados e sem a devida transparência fiscal.
Em Avaré, o contrato com o Governo Federal viabilizou uma grade de atrações cujos valores, publicados no Semanário Oficial do município apenas no dia 17 de junho (após o encerramento da festa), impressionam:
- Thaeme e Thiago: R$ 300.000,00 (Apresentação em 12 de junho)
- Mariana Fagundes: R$ 200.000,00 (Remanejada para 14 de junho)
- May e Karen: R$ 110.000,00 (Apresentação em 13 de junho)
- Lucca e Mateus: R$ 90.000,00 (Apresentação em 14 de junho)
Pelo menos dois destes artistas são citados nas investigações da PF.
Além da divulgação com menos de 15 dias de antecedência, a sustentação orçamentária do evento expôs fragilidades no controle e na fiscalização do uso do dinheiro público.
Em uma sessão extraordinária convocada na tarde de sexta-feira, 12 de junho — quando a festa já estava em pleno andamento e portões abertos —, a Câmara Municipal de Avaré aprovou uma suplementação de quase R$ 700 mil para o evento em uma votação relâmpago que durou apenas 9 minutos.
A manobra gerou forte protesto da oposição. Na ocasião, a vereadora Adalgisa Ward desabafou: “Estou indignada com a forma como esse projeto foi votado. Como o Legislativo pode aprovar um crédito para um evento que já está acontecendo?”
A aprovação do crédito com o evento já iniciado anulou praticamente o papel fiscalizador do Poder Legislativo, que apenas carimbou um montante que já vinha sendo executado pela gestão municipal.
Empresa e identidade
Outro ponto que chama a atenção é sobre a empresa contratada para a realização da festa. A organizadora homologada conta com sede registrada no município vizinho de Bofete e possui pouco mais de dois anos de fundação. Diligências preliminares apontam que a sede informada no CNPJ da empresa não condiz com o de uma produtora capaz de gerenciar eventos com estrutura milionária; o endereço apontado pela empresa mostra um sobrado residencial.
Outro questionamento de munícipes é com relação ao projeto enviado e aprovado perante o Ministério do Turismo, no qual a Prefeitura de Avaré estimou um público esperado de 24.000 pessoas. Contudo, o evento não tinha controles de acessos. O Ministério do Turismo orienta que eventos financiados com recursos federais apresentem pesquisas junto à rede hoteleira e levantamentos de impacto econômico no local. Nenhuma pesquisa oficial com a rede hoteleira de Avaré foi divulgada para atestar se o evento atraiu, de fato, turistas para a cidade. Toda a estrutura de alimentação e bebidas teria sido operada por comerciantes de fora da cidade, frustrando a expectativa de giro de capital entre o comércio e os produtores locais.
A identidade visual da festa também sofreu alterações substanciais ao longo da produção. Nas peças publicitárias iniciais, o evento ostentava as marcas do Governo Federal e do Ministério do Turismo. No entanto, conforme a data se aproximava — e durante a própria realização no recinto —, os logotipos oficiais não constavam da comunicação visual e dos banners instalados no local. A omissão do selo federal seria, em tese, uma prática que fere o Manual de uso de marca do governo federal.
O in Foco mantém o espaço aberto para que a Prefeitura de Avaré, o Ministério do Turismo e a empresa organizadora do evento apresentem suas manifestações e os devidos esclarecimentos à população.





































