
Em cada passo na areia, em cada subida íngreme, havia mais do que apenas esforço físico; havia uma vitória do espírito. Aos 45 anos, a avareense Patrícia Aparecida Hoffman não corre apenas quilômetros, ela corre contra o fantasma de um passado que ameaçou paralisá-la.
Sua jornada é um testemunho de fé, amor e resiliência. Em setembro de 1998, a vida de Patrícia foi abruptamente marcada pelo diagnóstico de Miastenia Grave, uma doença autoimune que quase tirou seus movimentos. A notícia da cirurgia, a timectomia, logo após o diagnóstico, impôs um medo profundo, mas também acendeu uma faísca de força interior.
O verdadeiro renascimento, no entanto, veio de uma forma inesperada: a corrida. Foi ali, lado a lado com seu marido, Diego, sua dedicada irmã Eliana, e o círculo de familiares e amigos, que Patrícia encontrou uma nova e vibrante alegria de viver. Ela afirma com o coração: a corrida a salvou, de mãos dadas com a fé em Deus.
O que começou como um refúgio se tornou uma missão. Patrícia não apenas correu, ela superou-se: uma maratona no ano passado, e o ápice este ano com a temida ultramaratona Medalha Ultra BM 2025, um desafio de 75 km. Antes de enfrentar a trilha de Bertioga, ela fez a primeira e mais importante parada: uma peregrinação de gratidão à cidade de Aparecida do Norte, para agradecer pela vida e pela saúde que a permitiam sonhar tão grande.
A inspiração veio de quem mais a apoia. Diego, seu marido, havia completado a prova no ano anterior. Patrícia, que o acompanhou nos 42 km, ouvia as palavras de encorajamento que a impulsionaram.
O destino, ou talvez um toque divino, completou o quadro: Outubro, o mês da sua timectomia em 1998, era o momento perfeito para honrar a nova chance de vida. “Aí vi que era outubro, mês que fiz a timectomia em 1998. Falei: ‘bora lá e vamos treinar’.”
A Ultramaratona exigiu uma dedicação de corpo e alma, e Patrícia, que também convive com o diabetes tipo 2, sabia que precisava de uma equipe de anjos. Ela confiou seu sonho ao técnico Guto Surbo, que acreditou em seu potencial, à fisioterapeuta Mayara Silvestre (e seu pilates e liberação miofascial) e a Luciane Mirandola, que a fortaleciam. Na nutrição, Carol Bernardino, de Botucatu, garantiu que Patrícia tivesse a energia para os longos treinos, a ponto de incluir até miojo na dieta para suportar a brutalidade dos 55 km!
Mas o alicerce de tudo foi o amor incondicional que recebeu durante todos os treinos, aqueles momentos em que ninguém vê ou aplaude os corredores.
“Foi um processo de dedicação, de renúncia, de apoio. Sem Diego não conseguiria sair de sábado às 4h30 para rodar 42 km de terra, ou era estradão, ou era Barra Grande. O Diego ia iluminando até terminar o treino, e depois ia trabalhar…”, conta.
Na linha de partida, os 75 km não eram só um trajeto, mas uma oração: “meu desafio 75 km, que nossa mãe Maria e meus anjos estejam comigo nessa trajetória.”
Ao cruzar a linha de chegada, Patrícia não recebeu apenas uma medalha; ela recebeu o símbolo da força extraordinária que reside em um coração que se recusou a ser paralisado. Sua vida é a prova de que as maiores batalhas internas nos preparam para as maiores conquistas externas. Ela é Patrícia Hoffman, a ultramaratonista que transformou a miastenia grave em uma inabalável alegria de viver.
(Matéria veiculada na edição 291)





































