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Um caso que chocou a região de Piraju ganha novos contornos com a revelação de um padrão de abusos sexuais que teria se estendido por mais de duas décadas. Um monitor de esportes da rede municipal, que também é proprietário de uma escola de futebol particular, está sendo investigado pela Polícia Civil após uma série de denúncias de pedofilia e estupro de vulnerável.

As investigações, que tramitam sob sigilo pelo Ministério Público, ganharam força após vítimas — hoje adultas — utilizarem as redes sociais para relatar traumas que carregam desde a infância.

De acordo com os boletins de ocorrência registrados, o investigado utilizava sua posição de autoridade como treinador para se aproximar de meninos com idades entre 7 e 13 anos. O histórico de crimes aponta uma linha do tempo alarmante:

  • 1998: Primeiro registro de abuso relatado.
  • 2005: Relatos de abusos recorrentes na casa do suspeito, onde houve a confirmação de conjunção carnal sob ameaça e manipulação psicológica. O agressor dizia que o ato “ajudaria nos treinos”.
  • 2024: O caso mais recente, ocorrido durante uma aula de educação física, que levou a vítima (ainda menor de idade) a procurar o Conselho Tutelar após apresentar quadros de revolta e recusa em treinar.

“Eu não devo ter sido o último”, desabafa vítima

Em depoimento ao portal g1, uma das vítimas, que hoje recebe acompanhamento psicológico para lidar com depressão e ansiedade decorrentes dos traumas, relatou que o agressor abordava os alunos durante os treinamentos e os convidava para sua residência. O trauma, guardado por 20 anos, só foi exposto em 2025.

A Prefeitura de Piraju confirmou que o suspeito é servidor concursado desde 1992. Diante da gravidade dos fatos, a gestão municipal informou que o monitor foi retirado de qualquer atividade que envolva contato com crianças e adolescentes. Há duas frentes de apuração interna foram abertas para investigar a conduta do servidor.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) confirmou a existência de três inquéritos. Dois já foram relatados à Justiça e um terceiro aguarda laudos do Instituto Médico Legal (IML).

A denúncia inicial

As denúncias inicialmente partiram da diarista Marielle Cristina Sartori, 35, que usou as redes sociais para expor denúncias contra o funcionário público municipal. Até o momento, as acusações foram feitas em três vídeos divulgados no ano passado.

O caso ganhou repercussão após publicação do jornalista Diego dos Reis (Expresso Piraju e Eduvale FM) com a entrevista de Marielle que expôs o relato de seu irmão, hoje com 34 anos. Segundo o Boletim de Ocorrência registrado em setembro de 2025, a vítima teria sido abusada pelo professor quando tinha cerca de 10 anos de idade, enquanto integrava a escolinha municipal dirigida por Pires.

De acordo com o depoimento, os abusos teriam progredido de toques para conjunção carnal na residência do investigado. A vítima relatou que só conseguiu romper o silêncio décadas depois, após passar por acompanhamento psicológico depois que tentou contra a própria vida, o que levou a irmã a questionar a atitude e acabou descobrindo a violência.

O irmão da denunciante era aluno do professor e teria sido estuprado em troca de promessas de que jogaria em grandes times de futebol. Na época ele tinha apenas 10 anos.

Ele tinha muita vergonha da situação, não queria se expor. Fiquei muita abalada e triste quando soube; ele destruiu a vida e o psicológico destas crianças”, desabafou ao repórter.

O problema é que o caso acabou sendo absurdamente arquivado pelo Ministério Público de Piraju porque o crime teria prescrito. A irmã da vítima quer que o caso seja reaberto imediatamente. “Não quero vingança; quero justiça” frisou.

Desde que Marielle passou a publicar vídeos sobre o assunto, novas denúncias surgiram. No último dia 6 de janeiro, a mãe de um aluno atual (menor de idade) registrou queixa após notar comportamentos estranhos no filho.

O registro policial cita um áudio enviado pelo professor ao jovem, pedindo para que ele não contasse nada à família. Uma “escuta especializada” — procedimento técnico com psicólogos para colher depoimento de crianças e adolescentes — já foi realizada e encaminhada às autoridades.

Segundo Marielle pelo menos outros seis casos chegaram até ela após a veiculação de suas denúncias, mas dois teriam sido arquivados pelo mesmo motivo.

 

O Outro Lado

Em vídeo publicado nas redes sociais, o treinador negou veementemente as acusações. Ele afirmou ser uma “pessoa de família”, mencionou ter dois filhos adolescentes e classificou as denúncias como “infundadas”. O investigado alegou que provará sua inocência no decorrer do processo e que já sofreu agressões físicas devido à repercussão do caso.

A Polícia Civil continua colhendo depoimentos e não descarta que o número de vítimas seja ainda maior, dado o longo período em que o treinador atuou na cidade.