O desenrolar da Comissão Processante (CP) que investiga o presidente do Legislativo avareense Samuel Paes (PSD) ganhou uma análise técnica e contundente nesta semana. Em um balanço sobre os últimos acontecimentos, o Major da PM Pablo Souza, ex-candidato a vice e comentarista da Jovem Pan, — que acompanha de perto a política local — classificou como “comportamento tendencioso” a forma como a Câmara tem gerido a publicidade dos depoimentos.

O oficial rebateu as acusações de que o jornal in Foco e outros veículos locais seriam “tendenciosos” por publicarem notícias que incomodam as autoridades. Para o analista, o papel da imprensa é justamente mostrar o lado que a comunicação institucional omite.

“A comunicação institucional visa preservar a imagem do gestor; jamais é utilizada como mecanismo de autocrítica. Se não há veículos de imprensa arriscando noticiar o que desagrada, a população fica refém de apenas uma versão dos fatos”, pontuou.

Ele lembrou que episódios graves, como a retirada à força do cidadão Vinícius Berna do plenário, só foram debatidos porque a imprensa e internautas “colocaram a cara a tapa”.

O ponto central da crítica reside na mudança repentina de postura da Comissão Processante. Até então, a justificativa para proibir gravações e demorar dias para divulgar vídeos era “não influenciar os próximos depoimentos”. No entanto, o depoimento do dia 17 de abril — que atacou diretamente a imprensa e terceiros — foi divulgado com uma rapidez inédita.

Enquanto depoimentos anteriores foram mantidos sob sigilo temporário, o vídeo do dia 17 foi liberado no mesmo dia. A convocação da testemunha foi publicada no site da Câmara durante a madrugada, dificultando o acompanhamento.

Para o Major, a inversão no tratamento dos dados e a seletividade na divulgação configuram uma tentativa clara de manchar a imagem do in Foco. Ele destaca que a igualdade de tratamento foi quebrada, sacrificando a impessoalidade que se espera de uma comissão julgadora.

“Sacrificaram a impessoalidade e não preservaram a imparcialidade essencial a quem tem a incumbência de julgar. Agiram exatamente como acusam os outros. Nota zero”, concluiu o oficial.

Retaliação e Resistência

A análise ainda reforça que o cerceamento não é um caso isolado, citando o impedimento do jornalista Gabriel Guerra de gravar oitivas, o bloqueio de repórteres no Paço Municipal e a constante negativa de informações ao in Foco. Segundo o Major, apesar da censura, esses veículos continuam sendo o único equilíbrio na balança do jogo político em Avaré.

Leia a análise na íntegra:

AVARÉ: A “BOMBA” E A LIBERDADE DE IMPRENSA

O dia 17 de abril de 2026 foi “bombástico” para Avaré. Um depoimento impactou o andamento da Comissão Processante (CP), que apura a suposta quebra de decoro parlamentar do Presidente da Câmara. Um dos pontos que me chamou a atenção foi a acusação de que o jornal in Foco faz publicações tendenciosas com o objetivo de lançar futuros candidatos.

Acompanho o in Foco há um bom tempo e, particularmente, não o vejo como um jornal tendencioso a prejudicar autoridades. O referido órgão apenas expõe o “outro lado da moeda” que o poder público omite. É fato que inúmeras matérias incomodam autoridades municipais, que as consideram negativas para a atual gestão, seja no Legislativo ou no Executivo. Mas pergunto: há algo errado em publicar notícias negativas?

Não, não há nada de errado. Aliás, desde que os fatos sejam verdadeiros, é plenamente recomendável. As notícias ditas “negativas” equilibram a balança do jogo político na formação da opinião dos munícipes. A administração pública possui departamentos de comunicação e vultosos gastos com publicidade; raramente vemos a comunicação institucional fazer autocrítica. Ela visa, ainda que indiretamente, preservar a imagem do gestor.

Tomemos o exemplo de Avaré: quando Vinícius Berna foi retirado à força da Câmara, a comunicação institucional reprovou a conduta? Não. Muitos vereadores optaram pelo silêncio. Quem teve coragem de enfiar o dedo na ferida e discutir esse assunto delicado? A imprensa e os internautas que colocam a “cara a tapa”. Sem veículos que se arriscam a noticiar o que desagrada o poder, a população fica refém de uma única versão.

O in Foco, o grupo JBMS e o portal Avaré Notícias têm assumido essa postura e, por isso, sofrem retaliações. Jornalistas são impedidos de gravar oitivas ou entrar em reuniões, e o acesso à informação é dificultado. Apesar da censura, esses veículos continuam informando o que a administração quer esconder.

Toda essa confusão na CP se deu pela falta de transparência na divulgação do projeto que aumentava o subsídio dos vereadores. A votação foi preparada para que ninguém percebesse. Agora, a CP peca pelo mesmo erro: impediram a gravação dos primeiros depoimentos sob a desculpa de “não influenciar testemunhas”, mas o depoimento do dia 17/04, que continha ataques à imprensa, foi divulgado com agilidade extrema, postado no portal de madrugada.

Por que essa inversão de tratamento? Por que tanta pressa em divulgar um depoimento específico se os outros foram preservados? Isso não é manipulação? Não se forma convencimento ouvindo apenas um lado. É notório que a igualdade de tratamento foi quebrada para manchar a imagem do jornal in Foco. No fim das contas, a Comissão agiu como acusa: sacrificou a impessoalidade e a imparcialidade. Dançaram no mesmo baile que condenam. Nota zero.