Movimento anti vacina
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Você consegue imaginar um mundo sem vacinas? Pois essa realidade não é tão antiga assim. Vamos voltar no tempo, lá para o início do século 20. Naquela época, uma em cada cinco crianças morria de alguma doença infecciosa antes de completar 5 anos de idade. Graças às vacinas, doenças terríveis e altamente contagiosas foram quase erradicadas. Algumas, como a varíola, de fato sumiram do mapa.

Não é por menos que é preciso lembrar como era o mundo pré-vacinas. Para as mamães que alegam que seus filhos são saudáveis e não carecem de picadas e gotinhas, cabe o questionamento se as crianças do passado por acaso eram menos saudáveis do que as nossas, já que adoeciam (e morriam) especialmente de doenças infecciosas.  Podemos supor, inclusive, que os pequenos do início do século 20 eram até mais saudáveis do que a criançada dos dias de hoje, uma vez que eram mais ativos e conviviam com menos poluição. Ainda assim, morriam com doenças que hoje quase inexistem, embora isso possa mudar.

Antes da vacina de Jonas Salk para poliomielite ser testada em 1952, aproximadamente 20 mil casos eram reportados por ano, só em terra americana. Hoje, depois das vacinas Salk e Sabin, a pólio foi praticamente erradicada. Nos Estados Unidos, antes da vacina contra sarampo, havia aproximadamente de 3 a 4 milhões de casos por ano, e uma média de 450 mortes anuais, registradas entre 1953 e 1963.

Após a introdução da vacina, nenhum caso foi reportado até 2004, quando a vacinação começou a ser questionada por parte da população. Meningite era um mal que matava em média 600 crianças por ano, e deixava sobreviventes com seqüelas como surdez e retardo mental. Antes da vacina de coqueluche, quase todas as crianças contraíam a doença, com aproximadamente 150 a 260 mil casos reportados anualmente e 9 mil mortes. Desde 1990, apenas 50 casos ao todo foram noticiados. Rubéola é um problema relativamente banal em adultos, mas pode acometer gravemente crianças ao nascer, se a mãe for contaminada durante a gestação. Em 1964, antes da imunização, 20 mil bebês nasciam de mães infectadas. Podemos nos estender nos exemplos e falar também de tuberculose, catapora, caxumba, hepatite B e difteria, que foram controladas com vacinas eficazes, mas que acometeram e mataram milhares de pessoas em um passado não tão distante.

As vacinas nos protegem contra doenças terríveis e há 60 anos têm se mostrado eficazes e seguras.

Como explicar, então, que existam grupos professando religiosamente um movimento contra a vacinação?

Como entender que temos famílias que deliberadamente escolhem NÃO vacinar seus filhos contra males potencialmente letais e capazes de deixar seqüelas? Pois é, o movimento antivacina vem crescendo no mundo todo, inclusive no Brasil, que sempre foi exemplo internacional de vacinação pública.

Em 2016, a meta de vacinação contra poliomielite (a paralisia infantil) não foi cumprida por aqui. Imunizamos 86% da população, ante os 95% recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Foi a pior taxa de vacinação dos últimos 12 anos. A pólio é (ou era) considerada erradicada do Brasil desde 1990. Quando uma parte da população deixa de ser vacinada, criam-se grupos de pessoas suscetíveis, que possibilitam a circulação de agentes infecciosos e quanto maior for o contingente não vacinado, menor a proteção conferida inclusive aos não vacinados. Isso é o que chamamos de imunidade de rebanho.

O problema, então, é que mesmo sendo uma escolha pessoal, ela atinge a vida dos outros e vira um problema de saúde pública. Não é à toa que casos isolados de poliomielite e coqueluche têm sido reportados. Em 2014, registraram-se dois casos de coqueluche em uma família de classe alta de São Paulo. As vítimas foram crianças não vacinadas por escolha dos pais. Eles temiam que as vacinas causassem autismo ou mesmo tumores (ligação que não tem pé nem cabeça). No Ceará e em Pernambuco, no ano de 2013 houve uma queda na vacinação de sarampo, seguida de um surto que acometeu 1 277 pessoas. O Brasil não tinha um único caso de sarampo autóctone – de origem local – desde 2000. Os poucos episódios eram de pessoas que vinham do exterior. Mais recentemente, reportagens publicadas no Brasil revelam um preocupante avanço do movimento antivacinação. O mais surpreendente é que famílias que escolhem não vacinar seus filhos reportam abertamente que usam, como fonte de informação, as redes sociais!

Curiosamente, o medo das vacinas espalhado pelas redes começou por causa de um médico que nunca foi partidário da causa antivacina.

 

 

O britânico Andrew Wakefield: a fraude que virou “movimento”

Ele apenas queria ficar rico vendendo um imunizante contra o sarampo. Para isso, fraudou um trabalho científico a fim de relacionar a vacina tríplice viral MMR, que protege frente a sarampo, rubéola e caxumba, com o autismo. A história aconteceu em 1998 e o protagonista foi o médico britânico Andrew Wakefield. Seu estudo, embora tenha sido publicado em um periódico respeitado no meio científico, contava com apenas 12 pacientes e não dispunha de fundamento. Forjando uma relação inexistente, Wakefield afirmava categoricamente que a vacina era a causa do autismo de seus pacientes.

Anos depois, descobriu-se não apenas que a pesquisa era uma fraude, com todos os dados e prontuários alterados, como também o estimado doutor havia sido financiado por um advogado que pretendia lucrar milhões processando os fabricantes da vacina. Ele mesmo tinha ambição de patentear uma nova vacina para substituir a MMR. Na verdade, Wakefield nunca foi contra imunizantes. Ele só queria emplacar a sua própria solução como arma exclusiva contra o sarampo. Resultado: o médico foi julgado e considerado culpado de fraude e conspiração na Inglaterra; a revista científica retirou o estudo e se retratou; Wakefield teve sua licença médica cassada e foi demitido do instituto onde atuava.

Ainda assim, suas fajutas conclusões conquistaram seguidores no mundo todo, principalmente nos Estados Unidos, onde teve início um movimento antivacinação sem precedentes na história. Por causa de um estudo falso, hoje milhares de pessoas estão convencidas de que vacinas, como um todo – e não somente a MMR – são a causa do autismo. O número de crianças não vacinadas está crescendo. Doenças antigas, quase erradicadas, estão reemergindo e a Amazon, além do Facebook, são os maiores promotores de falsos livros e notícias antivacinas. Estrago de fakes news.

 

(Fontes Revistas Veja, Saúde e BBC)